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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não permita que a intimidade vire desleixo, preserve a delicadeza.

A convivência leva alguns parceiros a se fundirem de tal forma que um não consegue mais ver a individualidade do outro. Como conseqüência, deixam-se de lado certas gentilezas na rotina diária. Alguns se esquecem até de simples cumprimentos e agradecimentos. O acúmulo desses pequenos descuidos pode se transformar em ressentimento e levar a relação a um beco sem saída.
O tempo funciona, sim, como remédio, para pequenos e grandes males surgidos numa relação amorosa. Coisas feitas ou feitas no calor da espontaneidade – mas também sob grande impulsividade – podem, com o passar das horas ou dos dias, ser revistas e resultar em um posicionamento mais sensato. É aliviador quando isso ocorre, pois a relação se fortalece e as pessoas percebem que são capazes de proceder com maturidade. Mas o tempo pode também ser o arquiteto de um beco sem saída para o relacionamento, a depender de como o casal lida com as pequenas situações do dia-a-dia e da atitude que um assume perante o outro na lida com o simples e o rotineiro.
No começo da vida a dois, as noites sempre terminam com um desejo de boa noite amorosamente expresso. Tempos depois, é possível que o silêncio ocupe o lugar dos beijos com que o casal selava o dia. Toalhas que um dia foram dependuradas cuidadosamente no lugar devido, hoje são deixadas em desalinho na toalete. Para alguns, barbear-se nos finais de semana deixa de ser importante. Os telefonemas, antes iniciados com erótica brincadeira, passam a dispensar cumprimentos, gracejos, agradecimentos e até despedidas. Camisolas elegantes são trocadas por camisetas surradas, com os furinhos previsíveis e a desculpa de que são "mais confortáveis e quentinhas". De fato, são. Mas quanta coisa fica excluída ou se esfria com essa quentura!? Não há mais quem peça "por favor": a delicadeza é substituída por crua falta de cuidado. Pois bem: implacável, o tempo acumula ressentimentos, perdas, danos e, se o par não se cuidar, instauram-se a impessoalidade, a indiferença, a negligência e o descaso. Quando o cuidado se perde, algo foi abandonado.
Entre as explicações que se podem encontrar para esse estado de coisas, destaco uma: os parceiros perdem, entre si, a condição de "outro", ou seja, há uma espécie de "fusão" do casal, caracterizada pela confluência de duas individualidades em uma só. Num pólo dramático, isso é descrito por Chico Buarque - na canção Eu Te Amo, quando fala de pessoas que já confundiram tanto as suas pernas que nem sabem com quais delas devem seguir ou do sangue de um que se perde na bagunça do coração do outro. Num pólo menos dramático, mas que está longe de ser saudável, um não diz "bom-dia" ao outro, como não diz "bom-dia" a si mesmo, tomando a individualidade do parceiro como mero apêndice da própria existência.
Contrastando com essa simbiose, são preservados o tato e a gentileza na relação com o grande mundo. É como se só essa instância conservasse a condição de “outro”, diante da qual, conseqüentemente, não se pode exercer o descuido, pois existe o temor de se perderem privilégios. Tal fato psicológico remete a outro, dele decorrente: as pessoas preservam quanto ao mundo uma relação análoga à que existe entre crianças e adultos, a quem se deve respeito.
Se é assim, o que se pode deduzir sobre o que passa na conjugalidade, então? Ora, ou o cônjuge é percebido como um igual (na qualidade de criança ou na de apêndice), ou é reduzido a um igual (negando em sua diferença), ou não se reconhece sua alteridade, sua condição de “outro”. Uma vez que essas coisas são complementares, é comum que todas entrem em jogo ao mesmo tempo.
Em razão da intimidade que lhe é intrínseca, um casamento dispensa o protocolo, mas não pode dispensar a delicadeza; prescinde da formalidade, mas não pode prescindir do tato; requer sinceridade, mas não tolera que, em nome dela, se exerça a grosseira. Uma união não precisa de assemelhar a uma instituição formal, impessoal, apenas juridicamente determinada, mas, sob pena de ruir ou banalizar-se, precisa manter-se ético.

Fonte: Alberto Lima, psicoterapeuta de orientação junguiana, é professor doutor em Psicologia Clínica e autor de O Pai e a Psique (Editora Paulus). Artigo originalmente publicado na Revista Caras.

2 comentários:

alexandre disse...

muito interessante pr's. que DEUS continue vos abençoando...

Edinaldo disse...

Gostei muito da matéria, pois é uma coisa vivida por muitos casais. Graças à Deus, já superei essa fase. Vou enviar esse link para alguns amigos que estão precisando, ler isto.
Um abraço.
Edinaldo.

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